AdC alerta para riscos na cadeia de valor da Inteligência Artificial (IA)
Comunicado 04/2026
20 de fevereiro de 2026
A Autoridade da Concorrência (AdC) publicou hoje um novo short paper no qual analisa questões concorrenciais associadas ao acesso a chips utilizados no treino e na execução de modelos de Inteligência Artificial (IA).
O acesso a chips de IA — bem como a hardware relacionado, designadamente através de serviços de computação em cloud — constitui um fator determinante para o desenvolvimento de sistemas de IA.
No entanto, a AdC observa que a cadeia de valor destes chips apresenta características estruturais que a torna propensa a elevados níveis de concentração.
Concentração estrutural e rigidez da oferta
A produção de chips de IA assenta numa cadeia de valor global complexa, sendo que as fases de desenho e de fabrico evidenciam um elevado grau de concentração. Esta realidade decorre, em larga medida, de fatores estruturais, incluindo economias de escala significativas, elevados custos de investimento e complexidade tecnológica.
Neste contexto, podem surgir constrangimentos ao longo da cadeia de valor, traduzidos em rigidez da oferta e aumento dos preços dos chips de IA. Estes fatores podem reforçar barreiras à entrada e à expansão, designadamente para startups e fornecedores de IA que pretendam treinar e implementar modelos avançados.
Integração vertical e ecossistemas integrados
A AdC destaca igualmente a crescente integração vertical observada no setor. Alguns dos principais designers de chips e fornecedores de serviços de cloud têm vindo a expandir-se ao longo da cadeia de valor da IA, desenvolvendo ecossistemas próprios e integrados que combinam hardware, software e serviços.
Paralelamente, têm sido estabelecidas parcerias estratégicas e investimentos cruzados entre operadores relevantes do setor.
Estas dinâmicas podem suscitar preocupações concorrenciais, na medida em que podem:
conferir acesso privilegiado a informação técnica e comercial sensível;
promover o alinhamento de incentivos entre operadores;
reforçar efeitos de dependência tecnológica (lock-in);
reduzir a interoperabilidade;
aumentar o risco de exclusão de concorrentes e de alavancagem de poder de mercado para segmentos adjacentes.
Um exemplo referido no documento é o CUDA, plataforma de desenvolvimento da NVIDIA, cuja ampla adoção e efeitos de rede associados contribuem para reforçar a posição da empresa no mercado de chips de IA.
Infraestrutura pública de HPC
A AdC assinala ainda que o acesso a infraestruturas públicas de computação de alto desempenho (HPC) pode contribuir para mitigar parcialmente os estrangulamentos identificados. Contudo, o seu impacto pró-concorrencial dependerá da definição de critérios de acesso transparentes, objetivos e não discriminatórios.
Atuação preventiva
Com esta publicação, a AdC prossegue a sua análise dos impactos concorrenciais da IA generativa, na sequência de anteriores short papers dedicados ao acesso e uso de dados, à abertura de modelos de IA e aos mercados laborais em IA, bem como de um Issues Paper publicado em 2023.
Esta série de documentos visa identificar riscos emergentes para a concorrência nos mercados digitais, promovendo uma atuação preventiva e informada, em linha com o mandato da AdC